Os escritos são laços que nos unem, na simplicidade do sonho... São momentos! 09-04-2004. Angra do Heroísmo - Terceira - Açores
20
Nov 09

... E negro de mistérios, traz-nos a nostalgia, a saudade e o querer voltar a vê-lo um dia. Altaneiro e vistoso, com seu manto todo branco, como que comandar as outras ilhas irmãs que, à distância, lhe acenam sorrindo por entre dias claros ou nublados. Nem lembro bem, há quanto tempo não vou mas é como se estivesse lá. Fecho os olhos e avisto, sentada na ponta do muro da casa do meu tio Amaro, aquela conchinha beijada pelo mar e pelo cantar forte ou suave das ondas que jamais nos deixam sós. Regalam os dias e embalam as noites...

Naquele cais pequenino mas grande de histórias dos maiores construtores de barcos e traineiras que, infelizmente, nunca vi serem levadas pela primeira vez ao mar numa inauguração feliz e entusiasta. Muito andei para lá e para cá, no Santo Amaro, no Terra-Alta, no Espírito Santo e outros. Tudo se acaba: são as gentes e as coisas... É uma pena mas nada por cá fica a não ser a doce recordação e os descendentes que vão honrando a memória do passado.

Quando eu era pequenina, digo pequenina e sempre avultada de corpinho, e mais tarde, na adolescência, a minha maior alegria era quando diziam cá em casa: - Vamos ao Pico! Nessa altura crescia em mim uma alegria que era difícil de explicar mas fácil de adivinhar olhando o meu rosto eufórico. Toca de fazer as malas, ir para o Porto das Pipas, dizer "adeus" ao Monte Brasil e ala em frente directos para o ilhéu do Topo, deslumbrante na passagem, e até ao porto da Calheta olhando aquelas calmas Fajãs e o escasso casario que mais parecia um presépio acolhedor, até aportarmos um bocado nas Velas. Como a ânsia era tal em chegar ao Cais de São Roque, achava sempre uma demora eterna as paragens e a viagem, muitas vezes com alguns sobressaltos: era só mar dum lado e do outro como que a querer engolir a minha felicidade que tardava em saltar para o cais.

Finalmente, avistava-se a ilha e o seu Pico majestoso e o coração batia tão forte que quase era uma ajuda para avançar mais depressa. A loucura total era o passar do barco para terra. Pensava para mim: "finalmente cheguei, só falta um bocadinho agora"! Às vezes tinha alguém que nos reconhecia mas a surpresa era sempre o nosso anúncio de chegada quando o carro estacionava junto da primeira porta do amor: a casa da Tia Vieira! Gritos de alegria, abraços tão apertados que uniam os corações que há muito não se estreitavam tanto...

E depois? Depois era um nunca mais parar, era largar-me por aqueles caminhos e atalhos a procurar todos os rostos de família... Num instante se colocavam as notícias (de cá e de lá) em dia entre sorrisos e lágrimas sãs...

Uns anos mais tarde, quando já a morte levara os mais velhinhos e doentes, eu fazia sempre uma visita ao cemitério para abraçar o silêncio dos entes falecidos e só depois ia ver o Santo Amaro, que ficava mesmo ali ao lado no seu altar salgado pelas ondas que ficam a espreitar as manhãs e noites picoenses e jorgenses, mesmo ao lado. Aquelas luzinhas do casario nocturno jorgense parecem velas a iluminar o Santo que saúda de cá o grande cavaleiro São Jorge, esguio, espraiando-se pelo mar em cânticos de júbilo e companhia melodiosa.

Quando era para voltar para a Terceira começava uma lágrima teimosa a querer saltar para se ir juntar ao mar que também se exaltava com o nosso regresso. Cheguei a ver da janela da casa da minha querida tia Margarida, a que dizem que eu sou mais parecida com ela, o mar a galgar o muro e vir lavar o caminho. Contavam-me que certos dias de tempestade, ele entrava pela porta da frente e saía pela que encontrasse mais próxima, que na verdade era a cozinha onde o cheiro a torresmos, salsichas, linguiça e inhames me fazia sair de cada refeição com o paladar regalado e agradecido. De certeza vinha de lá sempre com mais uns quilinhos... Ai que ricos doces de fruta, que queijos deliciosos, o bolo-tijolo, as vésperas, a angelica, o espirituoso vinho, uvas, figos e o manjar de deuses que sempre nos preparavam em cada convite, à vez e sempre numa casa diferente. Voltar para a Terceira era uma tormenta, um choro de abraços, lágrimas compridas que não estancavam mais... Quando já não via a minha "conchinha de amor", porque o barco já se ia afastando do cais da Ilha Maior, o meu coração perdia-se em tristeza e amargura... Pensava "deixei-me ficar em Santo Amaro..." mas tal nunca foi possível.

A vida continua e a minha residência estava fixa na ilha que me vira nascer, naquele quarto perto dos ares da Serra de Santa Bárbara, na pequenina freguesia da Serreta, com a janela voltada para o alto-mar que abarca o trio das ilhas que já visitei, felizmente: Graciosa, São Jorge e o Pico (até dizem que quando se vê surgir claramente a pontinha acima de São Jorge é sinal de que chove dali a três dias).

Queria tanto voltar aquela metade do meu coração mas há sempre algo que me impede. A vida modificou-se de tal forma que raramente há lugar a viagens de encontro à saudade. O dia que eu conseguir lá voltar, sei que muitos já nem saberão quem eu sou, apenas os de mais idade e os familiares vivos. Tantos que já se foram e tantos que ainda me esperam sempre com o grito de amor à chegada.

Querida amiga nova, Margarida, que Deus a proteja nessas Américas junto de sua família, que seja sempre muito feliz e, tal como eu, sinta o pulsar da Montanha no seu coração de ilhoa.

Nunca gostei das partidas... gosto sempre mais das chegadas porque nos tiram as lágrimas tristes e dão-nos as alegres.

Até outro dia que a prosa se solte ou a rima favorita.

Abraços da Rosa Maria

<mailto:santamarense67@yahoo.com>
publicado por Azoriana às 09:48
19
Nov 09

Bacalhau passa em revista
Contada e bem cantada
Por Amália, grã fadista,
Torna-se muito honrada.

Debaixo de esforço humano,
Trabalho e tanta saudade,
Em grande parte do ano
Sós no mar da imensidade.

Lembrando das suas gentes
Rendidos à sua missão,
Com lágrimas pendentes,
Mas para a frente é que vão.

Pescando o pão do mar,
Esse nobre e honrado povo;
Que as mulheres viam regressar
Com um choro e riso novo.

Oh, valente marinheiro,
Marujo com honradez,
Num mar nem sempre fagueiro;
És heróico português
Meio ano dás-te inteiro
Trazendo de cada vez
O bacalhau pioneiro.

Rosa Silva ("Azoriana")
publicado por Azoriana às 10:03
17
Nov 09

Desabafos pontuais

Cansei-me da vez da tarde,
Do dia e da manhã,
E daquele fogo que arde
À boquinha da certã.

É que a vida, meus senhores,
É uma luta até à morte
A pacatez dos Açores
Já não é mais o seu forte.

Que saudade da verdura
Que pingava matinal
Com a água da doçura
De um véu celestial.

Hoje tudo é martírio
E o mal torto a direito
E raramente um lírio
Povoa o último leito.

A paixão que me domina
Talvez nunca vá morrer
Faz parte da minha sina
Ver nas rimas o prazer.

Li as "Crónicas Terceirenses" (1)
Do ilustre Victor Rui Dores,
Recorda os seus pertences
E dá-lhe outros valores.

De que serve bater no peito
Persignar, rezar, orar,
Se raramente é perfeito
O que se faz sem pensar?!

Deus está em toda a gente,
No campo e na cidade,
E no coração ardente
Dos Homens de boa vontade.

Rosa Silva ("Azoriana")

Nota: (1) Tribuna Portuguesa 11/15/09 in
http://tribuna.npgproductions.com/news-26.html - página 5 - Crónicas
Terceirenses - "Recordação da túnica vermelha". Victor Rui Dores
publicado por Azoriana às 11:45
15
Nov 09

As notícias não são animadoras. Aqui e acoli vão surgindo alertas para que se faça algo para que a população em idade activa tenha o que fazer em vez de depender da família monoparental e de forma a não ficarem deprimidos e a pensar desaparecer do mapa.
Vamos lá a ver se o Dr. Artur Lima, que já está instalado onde tanto queria, vai conseguir fazer milagres ou mais valia ter continuado a fazer o trabalho de medicina dentária porque as cáries vão começando a doer.
Não há dinheiro que chegue para tudo. Vamos lá a inventar trabalho para os jovens antes que a gripe A (H1N1) atinja todos. Por ora, não há alarido suficiente mas quando a morte atingir um ente querido já é tarde de mais para pôr as mãos à cabeça.
Estou preocupada porque tenho quatro pessoas dependendo de mim cuja idade já não entra nos papeis da constituição do agregado familiar.
publicado por Azoriana às 10:55
13
Nov 09

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Na verdade, minha filha,
Foste grande lutadora,
Procuraste nesta ilha
Agora és trabalhadora.

Perdoa se a mãe magoa
Ou ralha alguma vez;
Sabes que toda a pessoa
Diz mal por bem talvez.

Quando eras pequenina
Cabias no meu regaço,
Agora és flor menina
Que merece meu abraço.

Nao és dada aos afectos,
Fazem falta podes crer;
Porque pais, filhos e netos
Toda a vida os hão-de ter.

E quando a mãe te deixar,
Chega a todos essa hora,
Lembra que por te amar
Nunca te mandei embora.

A ti e aos teus irmãos,
As pérolas do meu viver,
Oxalá que por suas mãos
Façam tudo por bem fazer.

Que procurem ajudar
A mãe, que já vai cansando,
O futuro possam trilhar
Lembrem a mãe de vez em quando.

Luís, Aida e o mais novo,
Paulo, e tudo que me abeira:
Sejam bons junto do povo
Que vos ajuda na Terceira.

Nao é uma despedida
É a sã dedicatória:
Amo-vos por toda a vida
Vocês são a minha história.

E não sei mais que fazer
Para não faltar comida...
A pobreza podem crer
Faz pensar melhor a vida.

Há quem tenha muito mais
E não viva com amor,
Gastam tudo aos seus pais
E lhes fazem maior dor.

No rosto brilhe um sorriso
Nos olhos cheios de mar,
Dou beijos de improviso
A quem vive no meu lar.

Rosa Silva ("Azoriana")
publicado por Azoriana às 12:41
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