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DO ANO 2016
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24.10.2016

Queria ser o pôr-do-sol
Da minha pele
Desnuda
No teu horizonte.
Fixar a âncora
No teu peito
De mar brando
E amar
...
Olhando a imagem
Ao relento
De nós.


#7 Carta à moda antiga - transcrição

por Azoriana, em 12.06.05

Carta #7 - transcrição

"Amor

A minha noite é como um grande coração a bater.
São três e meia da manhã.
A minha noite não tem lua. A minha noite tem grandes olhos que observam fixamente uma luz cinzenta a filtrar-se pelas janelas. A minha noite chora e a almofada torna-se húmida e fria. A minha noite é longa e longa e longa e parece sempre estender-se para um fim incerto. A minha noite lança-me na tua ausência. Procuro-te, procuro o teu corpo ao meu lado, a tua respiração, o teu cheiro. A minha noite responde-me: vazio. A minha noite dá-me frio e solidão. Procuro um ponto de contacto; a tua pele. Onde estás? Onde estás? Viro-me para todos os lados, com a almofada húmida, onde a face se cola, os cabelos molhados nas têmporas. Não é possível que não estejas presente. A minha cabeça vagueia, os meus pensamentos vão, vêm e esmagam-se, o meu corpo não pode compreender. O meu corpo, este ocaso mutilado gostaria por um momento aquecer-se no teu calor, o meu corpo implora algumas horas de serenidade. A minha noite sabe que eu gostaria de te olhar, de acompanhar com as mãos cada curva do teu corpo, de identificar o teu rosto e acariciá-lo. A minha noite sufoca-me com a tua falta. A minha noite palpita de amor, aquele que tento conter mas que palpita na penumbra, em cada uma das minhas fibras. A minha noite gostaria de chamar-te mas não tem voz. Gostaria, contudo, de te chamar e de te encontrar e de se apertar um momento contra ti e de esquecer este tempo que massacra. O meu corpo não pode compreender. Ele tem tanta necessidade de ti como eu, talvez, afinal ele e eu não formemos senão um. O meu corpo precisa de ti, muitas vezes quase me curaste desta solidão. A minha noite escava-se até já não sentir a carne e o sentimento torna-se mais forte, mais agudo, despido de substância material. A minha noite queima-me de amor.
São quatro e meia da manhã.
A minha noite esgota-me. Ela bem sabe que me faltas e toda a sua obscuridade não chega para esconder essa evidência. Essa evidência brilha como uma lâmina no escuro. A minha noite gostaria de ter asas que voariam até junto de ti, que te envolveriam no teu sono e te trariam até mim. Sentir-me-ias perto de ti no teu sono, e os teus braços enlaçar-me-iam sem que acordasses. A minha noite não é boa conselheira. A minha noite pensa em ti, sonha acordada. A minha noite torna-se triste e perde-se. A minha noite acentua a minha solidão, todas as minhas solidões. O seu silêncio ouve apenas as minhas vozes interiores. A minha noite é longa, e longa, e longa. A minha noite recearia que o dia já não aparecesse mais, mas, ao mesmo tempo, a minha noite tem a sua aparição, porque o dia é um dia artificial em que cada hora conta a dobrar e sem ti não é verdadeiramente vivido. A minha noite pergunta se o meu dia não se parece com a minha noite. A minha noite tem vontade de me vestir e de me empurrar para a rua, para ir procurar o meu homem. Mas a minha noite sabe que aquilo a que se chama loucura, de toda a ordem, semeia ventos. A minha noite ama-te de todas as suas profundezas. A minha noite alimenta-se de ecos imaginários. Ela pode fazê-lo. Eu fracasso. A minha noite observa-me. O seu olhar é suave e corre furtuivamente sobre todas as coisas. A minha noite gostaria que estivesses aqui para também correr sobre ti com ternura. A minha noite aguarda-te. O meu corpo espera-te. A minha noite gostava que repousasses no côncavo do meu ombro e que eu repousasse no côncavo do teu. A minha noite quereria ser espectadora do teu gozo e do meu gozo, ver-te e ver-me estremecer de prazer. A minha noite queria ver os nossos olhares cheios de desejo. A minha noite quereria ter cada espasmo entre as mãos. A minha noite tornar-se-ia meiga. A minha noite geme em silêncio a sua solidão ao recordar-se de ti. A minha noite é longa, e longa e longa. Fica enlouquecida mas não pode afastar de mim a tua imagem, não pode submergir o meu desejo. Ela quase morre de não te saber aqui, e mata-me. A minha noite procura-te sem cessar. O meu corpo não consegue conceber que algumas ruas ou uma geografia qualquer nos separem. O meu corpo enlouquece de dor por não poder reconhecer o teu vulto ou a tua sombra no meio da minha noite. O meu corpo queria beijar-te no teu sono. O meu corpo queria dormir em plena noite e ser despertado porque tu me beijavas. A minha noite não conhece hoje sonho mais belo e mais cruel do que esse. A minha noite uiva e rasga os seus véus, a minha noite choca com o teu próprio silêncio, mas o teu corpo continua impossível de encontrar.
Fazes-me tanta, tanta falta. E as tuas palavras...
O dia está quase a nascer.
Mil beijos"

Datada de 11-03-2005

Fim da transcrição
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Os escritos são laços que
nos unem na simplicidade
do sonho... São momentos!
Rosa Silva ("Azoriana")
DATA DA CRIAÇÃO
09/04/2004

A curiosidade aliada à
necessidade criou
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DEZ ANOS
2014/04/09

Não há rima para o tempo
Mas o tempo é uma rima
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