28.10.14 | Rosa Silva ("Azoriana")
Se o cantar me ajudasse Na vida a sobreviver Talvez medo não passasse Do medo que temo ter. Este medo me acompanha Desde a hora em que nasci E no peito me desenha A falta que tenho de ti (*). Se fosse mais arrojada E cantasse sem temer Talvez a voz fosse nada Comparado com o saber. Sem saber eu me criei Junto à berma da valeta E dos passos que já dei Comecei-os na Serreta. A Serreta é lugar frio Que aquece o coração; Se eu cantar ao desafio Quero ver-te na multidão. Multidão sei que não tenho A ouvir as minhas rezas; Se tiver bom desempenho Sei que a vida me prezas. Eu hoje estou desalmada Para rimar sem tafulho “Por favor fica calada Porque já falta o embrulho”. O embrulho de uma mãe Que gostava de cantigas… O fundo sei que não tem, Nem vê joio, nem ortigas. Ó minha mãe fostes cedo Desta vida para fora… Só tu sabes o segredo De eu estar cantando agora. Rosa Silva (“Azoriana”) (*) minha mãe.
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28.10.14 | Rosa Silva ("Azoriana")
Será que a voz não me ajuda Para eu ter mais alegria E por vezes nem me acuda Ao verso na cantoria?! A voz da inspiração Para mim é preferida Em qualquer ocasião É ela que nos dá vida. Uma vez frente à colina Temos de ir a preceito Com inspiração divina Sobe-se de melhor jeito. Dizem que o escrever É melhor que o falar Pode bem verdade ser Mas escrevo a cantar. É na hora que ele vem É como que em rajada O verso que me convém Pode até nem valer nada. Se o cantar me ajudasse Na vida a sobreviver Talvez medo não passasse Do medo que temo ter. Rosa Silva ("Azoriana")
28.10.14 | Rosa Silva ("Azoriana")
28.10.14 | Rosa Silva ("Azoriana")
Esta gente que agora canta Dos velhos não tem noção (?) Porque levantam a garganta E perde a força a missão. É preciso a humildade E elogiar os antigos Porque a sinceridade É que cria bons amigos. Não ouvia a cantoria Mas quando me interessei Vi brilhar como não via E a rima então pesquei. Não pesquei como quem pesca Com o fio chamariz Fui tecendo a quadra fresca Cuja rima é a matriz. Ai quem pudesse cantar A toda a hora e momento O que a rima segredar P’ra deixar voar ao vento. Há uma forte ventania Na arte dos cantadores Que fazem da cantoria O melhor voo dos Açores. Sinto a alma a explodir Com rimas ao desbarato Meu coração se as seguir De certeza dá-lhes trato.
Por favor alguém me acuda Estou a cantar a sério Se eu vos peço ajuda É p’ra desvendar o mistério. Que mistério é este o meu Parece não ter travão?! Se cada um tem o seu Este é mais que um vulcão. Valha-me Santa Maria! Valham-me anjos do céu! Dai-me asas p’ra cantoria, Fazei voar algum chapéu. Para ver o chapéu voar Da cabeça de vocês Era preciso atuar Muito mais que uma vez. Se calhar eu não enxergo O que muitos enxergaram; Se calhar eu não me vergo Como tantos já vergaram. Esta quadra foi tão pobre Como pobre também sou Só queria a alma nobre Do pouco que me restou. Ouvi Ferreirinha das Bicas Com seu filho a cantar Com quadras lindas e ricas Que me fizeram chorar.
Rosa Silva ("Azoriana")