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Criações de Rosa Silva e outrem; listagem de títulos

Em Criações de Rosa Silva e outrem

Histórico de listagem de títulos,
de sonetos/sonetilhos
(767 até agora)

Motivo para escrever:
Rimas são o meu solar
Com a bela estrela guia,
Minha onda a navegar
E parar eu não queria
O dia que as deixar
(Ninguém foge a esse dia)
Farão pois o meu lugar
Minha paz, minha alegria.

Rosa Silva ("Azoriana")

**********


Uma Véspera de Natal

por Rosa Silva ("Azoriana"), em 19.12.08

Na rua longa e escura o silêncio era a ordem natural. Ninguém ousava sair à rua porque no interior residencial o calor humano fazia-se sentir e era muito melhor que o frio mórbido do exterior. Uma nuvem pairava sobre aquela pequena mansão cuja iluminação radiosa dava um ar de festa a tudo o que a circundava. E lá estava a nuvem como que absorta àquele espectáculo de luz e magia. De repente, um cão da vizinhança ladra agressivamente. Alguém ia passando embrulhado em farrapos quentes, acompanhado pelo seu cão de guarda. Em passos lentos e pesados descia a rua atabalhoadamente balbuciando palavras em surdina. Parecia um fantasma da noite. "Quem me dera entrar nesta casa. Gostava de ver o rosto desta gente e a sua alma..." O cão que o acompanhava parou em frente a um portão que bem merecia ser reparado, e ladrou até que o seu amigo o mandou calar. O cão obedeceu prontamente e seguiu viagem com ele. Hoje a rotina tinha mudado. Na véspera de Natal não tinha ninguém que festejasse com ele nem tão pouco se importasse com ele. Mais valia ir de portão em portão na sua rotina que trocara da manhã para a noite. Não queria ser visto mas queria sentir-se acompanhado. Estava demasiado só para ser visto e olhado com indiferença. Há muito que o seu Natal permanecia um fantasma na noite mais apetecida do mundo. O seu sapatinho agora com um formato bicudo mas lustrado a rigor, era a única peça que não tinha grande utilidade nessa noite especial, apenas servia para galgar as ruas que o levavam junto dos portões ávidos pelo depósito daquele papel dobrado cheio de letras felizes. Pudera! Eram as letras do Natal, os votos de um punhado de gente feliz, os desejos mais salutares, as "massagens" de quem não sabia o que fazer para receber um salário por serviços prestados, e muitas imagens "cintilantes" muito diferentes das reais imagens que podiam ser captadas daquela pequena mansão que atraíra o ladrar do seu companheiro fiel e amigo - o Magano.

Não se sabe a razão mas o Magano em vez de ladrar passou à fase do ganir. O amigo Jonas acabara de lhe apressar o passo pois o raio do cão não havia maneira de avançar caminho. Fixou-se em algo caído contra a valeta. Era um xaile negro, todo enrolado, e parecia deixado de qualquer maneira em virtude de algum acontecimento recente. Não estava sujo nem nada, apenas permanecia contra a valeta e o cão não queria sair dali de maneira alguma. Gania e olhava o Jonas que se decidiu a ver o que se escondia debaixo daquele xaile negro... Era um Menino todo despidinho e com um sorriso que parecia inundar o rosto do Jonas. Já não tinha uma mão e uma perninha estava como que raspada. De resto, era um lindo Menino de cerâmica pintada à mão. Quem o teria pintado assim tão risonho? Quem o teria largado junto do xaile negro para talvez não sentir o frio daquela rua longa?

Então, comovido pela cena inesperada de uma véspera de Natal, o Jonas pegou no xaile que envolvia o Menino e levou-o consigo rua abaixo. Juntou-o à sua sacola dos diários matutinos que, excepcionalmente, foram distribuídos à noite. Uma noite calma e com uma nuvem que ainda mantinha o formato de fantasma gigante. Jamais o Jonas irá esquecer aquela nuvem e aquele momento do encontro com o Menino. Era a sua nova companhia na longa caminhada das novidades. Uma lágrima caiu pelo seu rosto e o cão apercebeu-se disso porque ganiu de novo e nunca mais se arredou do pé do amigo Jonas. Este nem era o seu dono mas gostava de acompanhá-lo sempre que o ouvia chegar junto da casa onde tinha os seus apetrechos. Era um cão bondoso e abanava a cauda todo contente porque obtinha do Jonas apenas um olhar carinhoso e amigo. Isso bastava-lhe e retribuía-lhe da maneira que podia.

Quando o Jonas acabou a sua ronda e voltou para o seu casebre, acendeu o candeeiro de petróleo, tirou os sapatos cansados e embrulhou os pés, depois de os escaldar numa água bem quentinha com sal, no xaile negro que trouxera toda a viagem e colocou o Menino na sua frente num pequeno recipiente que escolhera para o deitar e quedou-se a olhar para Ele toda a santíssima noite. O cão seguira-o até àquele casebre, ao contrário do que era habitual, como que contagiado por aquela maravilha e ficara no lado de fora da porta, devorando um bocado de pão que o amigo lhe dera. Era como que a recompensa pelo achado.

A adoração continuava no interior e a fogueira ia aquecendo o Jonas, cansado, e o Menino Jesus deitado. Ninguém sabe o que o Jonas balbuciara junto do Menino mas parece que o sorriso deste se iluminou e a sala pequena ficou radiosa. Nisto, Jonas adormeceu naquela cadeira de braços, que ele próprio tinha feito para as horas de repouso. Naquele momento era o que bem necessitava após os quilómetros percorridos levando as notícias diárias. Aquele ardina encontrara a sua fortuna: um Menino de ouro. Confidenciava ele depois aos amigos: "Encontrei o meu Menino de ouro!". Todos ficavam sem perceber o que ele queria dizer... Mas era verdade, Jonas não tinha família e Aquele tinha sido a sua companhia na véspera de um Natal diferente. Era o Menino Jesus que parecia ter vindo de propósito para o seu caminho para ele não ficar só no Natal.

Afinal, quem teria ficado só no Natal, sem aquele Menino? Ninguém... Como aquele Menino havia mais pois quem os pintava tinha muitos outros iguais... Quem deixara aquele Menino na valeta embrulhado num xaile negro era quem habitava naquela pequena mansão e sabia que aquele ardina viria por aquela rua longa e escura... Aquele Menino trazia a felicidade de uma Véspera de Natal. Fim.

[História de ficção para a "Fábrica de Histórias" inspirada em factos reais que serviram de mote para fantasiar a escrita. A todos um Natal repleto de carinho, paz, harmonia, saúde, alegria, amor e a companhia de um Menino Jesus.]

Rosa Silva ("Azoriana")

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3 comentários

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Confesso que chorei ao escrever esta história. Lembro-me daqueles que não tem companhia no Natal e lembro, sobretudo, do meu filho primogénito que não virá para a minha beira neste Natal. Que haja um milagre e ele venha ainda... Será que dá tempo?
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Marta a 19.12.2008

É de facto engraçado onde a imaginação nos leva
Histórias todas bonitas e todas tão diferentes saidas de um mesmo tema

Beijinhos
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Ana Paula Silva a 23.12.2008

Olá!

Já conhecem a recem divulgada mas muito antiga lenda de Natal?
Conta esta lenda que há muito, muito tempo atrás 4(!) Reis Magos seguiam uma estrela brilhante....
Nesta lenda ficamos a saber que o Pai Natal tem um gosto especial por chocolate... E que determinadas personagens estão muito magoadas com o Pai Natal e que este tem passado a sua eternidade a redimir-se... Porque será?
Podem conhecer esta lenda por completo na Acção de Natal da Elemento Digital em http://www.elementodigital.pt/presepiocompainatal/ e mostrarem o vosso apoio ao Pai Natal.
Coitadinho, já merece o perdão.

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Os escritos são laços que
nos unem na simplicidade
do sonho... São momentos!
Rosa Silva ("Azoriana")

DATA DA CRIAÇÃO
09/04/2004

A curiosidade aliada à
necessidade criou
o 1º artigo e continuou...
15 ANOS
2019/04/09


Não há rima para o tempo
Mas o tempo é uma rima
Que serve de passatempo
A quem o tempo estima.

in DI Domingo. Foto de António Araújo

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Neste espaço residem pequenos fragmentos da alma serretense.
Um residente classificou-a como sendo fresca no clima e quente na hospitalidade. É, sem dúvida, uma freguesia fresca, pequena mas com uma grande alma.

É um "Cantinho do Céu", como a autora lhe chamou num dos seus artigos publicados.
Sob o pseudónimo de Cidália Miravento e na capa de "Azoriana", Rosa Silva vai reunindo coisas suas e de outros no intuito de divulgar a freguesia que lhe deu berço - SERRETA.

Bem-vindo à Serreta, a freguesia de Nossa Senhora dos Milagres desde 1/1/1862, do concelho de Angra do Heroísmo, ilha Terceira - Açores.




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