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“É sempre a mesma coisa”

por Azoriana, em 17.08.18

Não, não é! Mas parece…

O ritmo da vida tem compassos diferentes. Há eventos e Eventos. Uns descrentes e outros crentes q.b. (não exageremos em nada). Acontece que desde que me ausentei, por vontade própria (infelizmente), para outros ares que não os do monte serretense, sinto sempre a mesma coisa no correr do mês de agosto (o oitavo do calendário): Como vai ser para a “mudança” para o perfume do cedro do mato, das hortênsias, das dálias e outras flores mais resistentes, para a feitura dos arcos, para a romagem da procissão da Santa mais falada na segunda semana de setembro, aquela a que ainda muitos acreditam que é mais que uma estátua miúda mas linda de preces e orações em situações, ora boas (agradecimento) ora menos boas (pedidos de misericórdia)?! Para as touradas… Como vai ser sem ter o “teto” materno da meninice e juventude (até vinte e um anos)?!

Soluções surgem quase sempre como que num apelo ao que era bom: o perfume florido do interior do Santuário de Nossa Senhora dos Milagres, ao Jardim de Nossa Senhora, aos cânticos ensaiados com antecedência até serem como vozes de anjos presentes na Festa da Mãe padroeira da Serreta.

E a Filarmónica toda aprumada e “dona” de toda a melodia imparável: Tocatas, marchas, hinos, alvoradas, toques de cor. Acordar cedo ou nem ter tempo para dormir nesses dias que iluminam e trazem vida à freguesia de pouca população residente, mas com um mar de gente amiga e que volta durante a segunda semana de setembro.

Sem Maria, sem a Mãe, sem a Senhora dos Milagres quem aguenta?! Eu que sou nada e crescida a ouvir e ver tudo (ou quase) nasce-me, ano-a-ano, uma vontade de lá estar rente e presente…

A maior parte do casario decora-se para prestar a homenagem devida à sua querida Mãe, que gosta de sair à rua. Que me lembre não saiu umas vezes: se chovia ou ventava muito. É que a imagem é pequena e leve, mas em cima do andor enfeitado das melhores e prometidas flores torna-se um peso pesado para glória do sacrífico de quem vai levá-lo por promessa ou simplesmente por amor. Há muitas maneiras de amar. A meu ver carregar um andor aos ombros é uma delas. Pesa e desajeita cada ombro, mas chega-se ao fim com a sensação de amor cumprido pela honra da Festa, seja qual for a intenção. É a viagem da imagem que se mostra pelo caminho ornamentado dos belos tapetes de cedro picado, hortênsias ou flores desfolhadas para rechear de beleza todo o circuito habitual.

E antes, muito antes?! Limpar todos os cantos à casa de moradia, tirar as roupas com aquele cheiro bolorento de humidade serrana para o estendal dos muros até que o sol a impregnasse de novo perfume após serem passadas por água fresca e sabão (azul e branco, outrora, sabão em pó da modernidade) numa pia de pedra talhada bem à maneira das mãos se consolarem no lavadouro a esfregar até se achar que o tecido parecia outro, renovado…

E ainda?! Cortinas, tapetes, toalhas, todos os paninhos que tinham servido para repousar o pão e massa sovada até levedarem e irem para um forno de porta aberta por onde, primeiro, entravam as lenhas para o aquecer e depois aquelas “bolas” de massa, em fileira e à vez, até se tornarem fofas e rosadas com o melhor dos paladares.

Há e mais?! E as alcatras de carne de vaca (ou de porco), também faziam parte desta trabalheira alegre e promissora. Serviam de reserva alimentar para passar os dias da Festa da Senhora dos Milagres com um rosto alegre para os peregrinos, para os forasteiros, para os emigrantes perfumados de América, Canadá e outros pontos do mundo onde houvesse um amor à Virgem, uma saudade palpitante. Muita dessa saudade fazia cair aquela lágrima quente pelo rosto que, por desventura, não podia assistir presencialmente ao desfilar de um mar de gente crente e suplicante.

Ave, Ave, Ave Maria! Ave, Ave, Ave Maria! O meu milagre seria mesmo… sete dias na Serreta nem que fosse a dormir no chão com o canto da noite a embalar-me e as estrelas de um sorriso a encantar-me.

17.agosto.2018

Rosa Silva (“Azoriana”)

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Rosa Silva ("Azoriana")
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